Lua alta, redonda, céu sem limite se
encontrando com o mar, paisagem única. Ela sentia seu corpo quente. Ele era
certa solidão, pensamento distante. Se acharam por acaso passeando pela areia,
quando os olhares se encontraram ainda distantes, passava por dentro de cada um
aquele frio que busca conforto, risos pela coincidência, sem palavras seguraram
as mãos, algo por dentro era uma roda girando o desejo de que é preciso ir
além, lábios, línguas enlaçando, soltando para fora a vida presa, podia ser de
outra forma, o acaso é o que muitos chamam de coisa de Deus, abraçados procuravam desatar os nós, na
excitação, perceberam os espaço, entraram no transe, na paz, diante dos olhos
dos orixás, ficava para trás as brincadeiras infantis, pertenciam ao mesmo
lugar desde sempre, se amavam bem antes de terem desembarcado por aquelas
terras, era justo que os dois se desvirginassem, que o sangue, amor/dor fosse
lavado pelas ondas verdes que era razão de viver e morrer de todos. As mãos
ainda unidas, permaneceram estirados na praia, em instantes passaram a traçar
planos para o futuro, casamento, filhos, deixar a vila dos pescadores, tanta
coisa além dos limites do que nem podiam imaginar que existisse. Em meio a
conversa ela adormeceu. Pedro não conseguia, dentro de algumas horas seria o
desbravador do mar, na peleja para colocar em prática outra existência. Quando baixava a lua, sabia que era a hora de
partir, levou a pequena para a casinha dela, depois de um longo abraço, partiu
rumo ao seu destino. Era feliz como o vento que batia em seu rosto. Todos os
pescadores retornavam no mesmo horário, ela correu para a sua chegada, ficou
parada, tentando avistar o seu barco e nada, triste, abraçou a mãe, Firmino,
pescador experiente, tentou consola-la, dizendo que ele podia ter ficado numa
ilha para tentar uma pesca maior. A lógica de quem não retorna é quase sempre
história para o futuro, algo que se conta em meio aos tragos noite adentro, por
mais simples que possa parecer a vida naquele lugar é carregada de grande mística,
Tem hora que a gente pragueja contra os santos que amamos, depois a gente volta
atrás na esperança de que algo de bom aconteça, ela vivia esse dilema, acendeu
uma vela, se lembrou do pai que também partiu sem dizer adeus, sem sofrimento
de doença, a vela se apagou de forma repentina, ela reacendeu, chorou em
silêncio pelo sinal que recebia das esferas superiores. Numa manhã, todos
correram para o mar falando o nome de Pedro, ela sentia o coração bater firme,
queria beija-lo, tocar o seu corpo salgado, destruir a saudade, corria se
desprendendo da redoma do medo, teria trazido além de grande cardume, peixinhos
dourados e conchinhas coloridas para ela? seus pés descalços velozes, Chica,
sua mãe, pedia calma, ela chegou e deu com o corpo de Pedro ao lado das pedras,
mordido de peixe, no choque não passou lágrima pelo rosto moreno, apenas disse
baixinho, morreu, morreu.
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